CineLab • Seminário

Gut_Brain 3: Destructive desires and other destinies of excess — Predatory and Omnicidal Violence

Irmgard Emmelhainz

Segundo uma reportagem publicada pela Forbes México há dois anos, quase onze mulheres são assassinadas por dia no país. Um número deste tipo apresenta a violência como uma soma de acontecimentos discretos, cada um dos quais poderia, em princípio, ter sido evitado. Aquilo que a estatística não consegue registar é a possibilidade de esta violência pertencer às próprias condições sob as quais a ordem social se reproduz. Se assim for, a violência que desloca e faz desaparecer as mulheres, e que é exercida sobre os seus corpos, tem de ser pensada como constitutiva. É ela que dá forma ao campo social, e capitalismo é um dos nomes da ordem que ela sustenta.


Os ficheiros Epstein podem ser lidos a esta luz. Documentam uma rede de multimilionários e predadores sexuais que, ao longo das últimas três décadas, alcançou as mais altas esferas do poder global, e no seio da qual a violência de género, entre outras atrocidades, foi normalizada como uma forma de pertença tribal. Seria tentador tratar esta rede como uma exceção patológica, um grupo de indivíduos cujas falhas morais os distinguiriam de todos os demais. Uma tal leitura protege a ordem que pretende descrever, pois situa a violência nas pessoas e deixa a estrutura intacta. Propomos, em vez disso, ler o caso como um sintoma, um ponto em que a lógica do todo se torna visível de forma concentrada. O que aí aparece é uma relação com os outros fundada na apropriação, a mesma relação sobre a qual as sociedades ocidentais foram erigidas através da predação da natureza e do omnicídio dos povos originários e dos seus territórios. Por omnicídio entendemos uma violência cujo objeto é um mundo, a totalidade das relações através das quais uma forma de vida se sustenta, para além da destruição de vidas individuais.


Esta violência, herdada de estruturas ancestrais, expropria o corpo, penetra a pele e atinge os afetos. Emmanuela Borzacciello chama-lhe o dispositivo de “expropriação-despossessão do corpo”, um mecanismo que destrói laços afetivos e instrumentaliza corpos feminizados e dissidentes para exibir força e afirmar o poder, juntamente com a própria possibilidade de o exercer. A indiferença perante esta violência legitima o heteropatriarcado e corrói os laços comunitários, bem como a capacidade das comunidades de sustentar a vida coletivamente. A violência de género e a violência predatória omnicida operam em conjunto. Ambas têm raízes no capitalismo e, igualmente, num sistema colonial que nunca foi desmantelado e que, pelo contrário, foi perpetuado e institucionalizado pelos Estados-nação.


Se a violência de género é constitutiva, não pode ser confinada à cena dos seus atos mais visíveis. Implica a sociedade no seu todo, incluindo as suas culturas, os seus sistemas de vida e as suas formas de subsistência. Analisaremos obras de Tracey Emin, Rebecca Belmore, Daniela Ortiz, Regina José Galindo e Lorena Wolffer, bem como obras literárias de Marisol García-Walls, Neige Sinno, Natacha Appanah e Ximena Santaolalla, que tornam percetível aquilo que a estatística deixa por registar. Lido através destas obras, o corpo individuado acometido de anorexia, colite, diabetes, doença de Crohn, cancro, Alzheimer, fibromialgia e outras doenças autoimunes e inflamatórias torna-se uma superfície de inscrição. Expõe o horror sob a nossa pele, a violência e o trauma transmitidos ao longo de gerações, e sugere que a hierarquia da predação se estende para lá dos limites do eu. Lentamente, a violência predatória e omnicida está a esvaziar de vida os nossos próprios corpos.

Bio

Irmgard Emmelhainz é tradutora, escritora e investigadora independente, sediada no Vale de Anáhuac (Cidade do México). É doutorada pelo Departamento de Arte da Universidade de Toronto e mestre em História, Teoria e Crítica da Arte pela School of the Art Institute of Chicago. Os seus textos sobre cinema, a Questão da Palestina, arte, cultura e neoliberalismo foram traduzidos para 12 línguas e publicados em diversas publicações internacionais. O seu livro The Tyranny of Common Sense: Mexico’s Neoliberal Conversion, publicado em espanhol em 2016 com prefácio de Franco (Bifo) Berardi, saiu pela SUNY Press em 2020. The Sky is Incomplete: Travel Chronicles in Palestine foi publicado pela Taurus México (2017), pela Vanderbilt (2023) e pela Siglo XXI (2025), e Jean-Luc Godard’s Political Filmmaking saiu pela Palgrave Macmillan em 2019. As suas publicações mais recentes são Toxic Loves, Impossible Futures: Feminist Lives as Resistance (Vanderbilt, 2021; Taurus, 2023), Envíos de otros mundos posibles: ejercicios de imaginación radical (2023) e Contrahistoria del ‘pueblo’ mexicano (2025). Estão no prelo Neurofascismos (Siglo XXI) e Un mundo se desvanece (Canal Press). É bolseira do Sistema Nacional de Creadores do México na área do ensaio (2025–2027).


Este seminário, coorganizado com a Maumaus, está aberto a estudantes de mestrado e de doutoramento, bem como ao público em geral. Se pretender participar, envie um e-mail para phildoc@fcsh.unl.pt. A inscrição é obrigatória, uma vez que os lugares são limitados.


O seminário decorrerá em inglês.

Financiamento
Evento financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto UID/00183/2025 https://doi.org/10.54499/UID/00183/2025.