EPLab • Seminário Permanente

Uma Utopia Perene e o Seu Fracasso: A Ideia de Uma República Universal

Tamara Caraus

A 15.ª sessão do Seminário Permanente do EPLab estará a cargo de Tamara Caraus (U. Lisboa), que falará sobre “Uma Utopia Perene e o Seu Fracasso: A Ideia de Uma República Universal”. A sessão terá lugar no dia 24 de novembro às 10:30, na sala SD do Colégio Almada Negreiros (Campus de Campolide), com transmissão online, e decorrerá em português.


Se tiver interesse em participar, presencialmente ou online, deverá contactar os organizadores: Inês Pinheiro (ines.pinheiro@campus.fcsh.unl.pt) e Devon Cass (devoncass@fcsh.unl.pt).

Resumo

A ideia de uma República Universal surge como uma utopia perene, condenada ao fracasso. Expressada pela primeira vez por um dos primeiros estóicos, Zenão, na sua obra perdida A República, através da imagem de um “rebanho que se alimenta em conjunto e partilha o pasto de um campo comum”, a ideia de um mundo único e de uma comunidade humana única tem sido reafirmada periodicamente em diferentes contextos religiosos e revolucionários. As duas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial constituíram o apogeu das ações empreendidas por cientistas, ativistas e pessoas comuns para concretizar a ideia de uma instituição mundial assente no conceito de paz, tendo a mais recente reiteração ocorrido no âmbito do ativismo migratório que proclamou que Ninguém é Ilegal. No entanto, na filosofia política, a ideia de uma República Universal, regra geral, é recebida com escárnio e receio; por exemplo, Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo, considerava aqueles que tentavam conceber uma instituição mundial como “idealistas profissionais” com uma linguagem própria de “sociedades para a prevenção da crueldade contra os animais”. O próprio Kant, temendo um “despotismo sem alma”, adiou a ideia indefinidamente, um receio reafirmado por Rawls, a quem se atribui o renascimento da filosofia política no século XX. Reconhecendo o fracasso, esta apresentação questiona se a ideia de uma República Universal poderia ser repensada, examinando as principais críticas que apontam para uma ameaça iminente à diversidade, à diferença, ao pluralismo, etc. Argumenta que a crítica parte da pressuposição de um consentimento, de uma unidade e de um significado último que, uma vez instituídos, não podem deixar de conduzir a um Leviatã global. A uniformidade temível atribuída à República Universal é uma extrapolação da visão de unidade e solidariedade numa sociedade “bem ordenada”, que constitui a visão normativa última da filosofia política atual, alcançada através da exclusão dos “excluídos” e das sociedades “sobrecarregadas”. Ao abordar a sua atual estrutura de exclusão e ao reconhecer as interdependências passadas e presentes do mundo, a filosofia política não pode deixar de chegar à ideia da República Universal, não como a personificação de um significado absoluto, de um conjunto de certezas definitivas ou de um consenso global, mas como a “dissolução dos marcadores de certeza” (Lefort), tanto a nível local como global. Através de um questionamento permanente, a ideia de uma República Universal poderia ressurgir como uma instituição de democracia radical.


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Financiamento
Evento financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto UID/00183/2025 https://doi.org/10.54499/UID/00183/2025.