Faces da Multidão
No último quartel do século XIX, um novo fenómeno impõe-se aos olhos dos intelectuais europeus: a multidão. Apesar dos elementos de continuidade com movimentos de massa anteriores, a multidão industrial e urbana é um fenómeno novo com características novas. Sobre elas concentra-se uma nova disciplina, surgida na interseção entre a sociologia e a psiquiatria: a “psicologia das multidões”. Entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, o crescente protagonismo das massas também desperta a atenção de filósofos — A rebelião das massas, de Ortega y Gasset, é de 1929 —, literatos (Baudelaire, Edgar Allan Poe, Émile Zola, entre outros) e artistas. A imagem da multidão oscila entre o imaginário romântico, e em parte ainda pré-industrial, de um agente anónimo e coletivo do progresso histórico e a sua nova representação como força irracional e imprevisível: “a grande histérica”. Esta mudança de paradigma pode ser exemplificada a partir de duas obras de arte, de valor e propósito diferentes: “Il Quarto Stato”, de Giuseppe Pellizza, e “La Folla”, de Sexto Canegallo.