The Tragedy of Political Power: On Destituent Power in Sophocles’ Antigone
Enquanto pináculo tanto da cultura grega antiga como da literatura mundial, a Antígona de Sófocles tem atraído repetidamente a atenção de muitos pensadores, que consideram esta obra-prima uma fonte inesgotável de inspiração quando se discutem fenómenos humanos fundamentais, como a natureza do poder, o conflito entre o direito natural e o direito positivo, bem como a tensão entre o indivíduo e a comunidade. Esta apresentação não é exceção, pois abordará a peça na perspetiva de dois conceitos que têm estado no centro de muitos debates nas últimas duas décadas: o poder constituinte e o poder destituinte. Tal interpretação será desenvolvida em três etapas. Em primeiro lugar, centra-se na célebre exaltação dos feitos humanos presente na Antígona, sugerindo que a intrincada relação entre as suas facetas naturais e culturais constitui o pano de fundo filosófico essencial da obra. Em segundo lugar, Antígona é reinterpretada como a representação de uma forma disfuncional de poder destituinte e como uma figura profundamente ambígua, que não pode ser reduzida à imagem de uma heroína da desobediência civil. Por fim, a obra discute a natureza complexa de Creonte e procura reavaliar a sua personagem — que não é menos trágica nem menos disfuncional do que Antígona —, uma vez que manifesta tanto os aspetos positivos como os negativos do poder soberano. Ao dissecar a oposição radical e especular entre Creonte e Antígona, o texto apresenta-os como duas faces de um poder político em processo de implosão.