CultureLab • Seminário

Vasfi O. Özen

Nietzsche’s pathos of distance and the limits of democratic compatibility

O pathos da distância (Das Pathos der Distanz) decorre de uma predisposição natural que se manifesta em certas relações que alguém mantém com o seu meio sociocultural. Nietzsche define minimamente o pathos da distância como “o sentimento de diferença de hierarquia [das Gefühl der Rangverschiedenheit]” (NF-1885, 1[10]), o que sugere um sentido de distância social. Contudo, o sentido que Nietzsche atribui à distância vai além da mera noção de afastamento social em relação aos outros. O pathos da distância implica uma separação tanto social como psicológica, a fim de realizar o próprio potencial e, desse modo, alcançar a perfeição própria da sua natureza. Por isso, em Crepúsculo dos Ídolos, “Incursões de um extemporâneo”, §37, Nietzsche oferece uma caracterização mais completa do que é o pathos da distância. Ele é suscitado pelo “abismo entre um povo e outro, uma classe e outra”, o que então resulta na “vontade de ser si mesmo, de destacar-se [der Wille, selbst zu sein, sich abzuheben]”.


Diversas questões surgem imediatamente: que características ou qualidades singulares é preciso possuir para se destacar? O que implica destacar-se como pessoa singular? De onde provém esse pathos? Trata-se de algo inato, em vez de algo enculturado, constituído por, e constitutivo de, modos de vida específicos? Qual destas hipóteses é a correta? Ou será uma combinação de ambas?


O pathos da distância constitui a condição prévia necessária para o incremento do poder e a autossuperação tanto dos indivíduos quanto da sociedade, impulsionados pela vontade de autodisciplina e autodomínio. Sustento que o surgimento e o cultivo do pathos da distância se realizam mediante o estabelecimento de uma certa fronteira ou ordem hierárquica entre indivíduos, na qual as diferenças de capacidades e aptidões dão origem a uma hierarquia de direitos e deveres. Em seguida, procuro compreender e avaliar a tese de Nietzsche segundo a qual a crença na igualdade de direitos e privilégios (fundamento normativo da democracia) fomenta uma cultura de mediocridade e ressentimento e implica uma rejeição dos indivíduos excepcionais. Um dos debates centrais na investigação contemporânea sobre Nietzsche consiste em saber se o pathos da distância é compatível com a instituição formal da igualdade de direitos. Segundo uma interpretação influente, quando Nietzsche critica a igualdade, está a criticar a ideia de que todos os seres humanos possuem valor intrínseco igual (a presunção de igualdade de tipos), e não a ideia de que possuem direitos, liberdades e estatuto iguais (a presunção de igualdade política). A igualdade de direitos refere-se à igualdade formal, que simplesmente denota tratamento idêntico, igual ou semelhante para todos. Como a igualdade de direitos não possui conteúdo normativo substantivo nem implica um compromisso com uma concepção específica do bem, não pode ser plausivelmente vista como um obstáculo ao cultivo do pathos da distância, o qual é reforçado por uma crença firme na superioridade e no valor de certos seres humanos. De acordo com esta interpretação, sugere-se que o próprio Nietzsche teria considerado que o compromisso com a instituição de direitos iguais é compatível com o pathos da distância. Contesto, porém, os autores que defendem uma forma de compatibilismo entre a democracia (em particular as instituições democráticas) e o espírito anti-igualitário do pathos da distância.


(A apresentação será conduzida em inglês.)

Bio

Vasfi Onur Özen concluiu o seu doutoramento em Filosofia na University of Kansas em maio de 2022. Desde 21 de julho de 2025, é Global Postdoctoral Fellow na Habib University, vinculado ao Comparative Humanities Program da School of Arts, Humanities & Social Sciences. O seu percurso académico abrange várias instituições: é licenciado (B.Sc.) em Economia, com concentração em Ética Empresarial e Económica, pela Martin-Luther-Universität Halle-Wittenberg (Alemanha), e possui ainda uma licenciatura (B.A.) e um mestrado (M.A.) em Filosofia pela Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica). Os seus interesses de investigação situam-se principalmente na interseção entre a psicologia moral, a história da filosofia (em particular a filosofia alemã do século XIX), a filosofia da ação e a filosofia social e política.