Ciclo de cinema Temporalidade e Decadência
De 5 a 6 de junho, a PROSA Plataforma Cultural recebe um breve ciclo de cinema dedicado à cineasta norte-americana Kelly Reichardt, com organização de Alexandre Braga e curadoria de Henrique Brazão, ambos investigadores do CineLab. Com o título “Temporalidade e Decadência”, o ciclo reúne dois filmes centrais da sua obra, Old Joy (2006) e Wendy and Lucy (2008), em duas sessões seguidas de uma conversa aberta com os organizadores e curadores do ciclo.
Programa
Sexta-feira, 5 junho
19:30
PROSA Plataforma Cultural
OLD JOY
2006 | M/12 | 1h16 [US]
De Kelly Reichardt
Legendado em português
Dois velhos amigos reencontram-se para acampar nas montanhas Cascade, no Oregon.
Sábado, 6 junho
19:30
PROSA Plataforma Cultural
WENDY AND LUCY
2008 | M/12 | 1h20 [US]
De Kelly Reichardt
Legendado em português
Durante o verão, uma sucessão de acontecimentos infelizes desencadeia uma crise financeira numa jovem, que depressa se apercebe de que a sua vida está a desmoronar-se.
Kelly Reichardt (n. 1964), nome maior do cinema independente norte-americano contemporâneo, é principalmente uma cineasta do tempo. Com obra associada pela crítica e pela academia à premência de um “cinema lento” no circuito de festivais de cinema nas primeiras décadas do novo milénio — aproximação controversa de universos heterogéneos onde coabitam Pedro Costa, Béla Tarr e Tsai Ming-liang — será mais justo caracterizá-la para além de operações de ritmo que emergem inevitavelmente por comparação com outras cinematografias. As temporalidades de Reichardt não privilegiam a contemplação nem criam refúgios de pausa ou contrapontos de uma suposta vertigem do fluxo interminável de imagens, num mundo inerentemente veloz. A delonga, espera ou estagnação são consequências da economia de atenção que o seu gesto propõe: o foco nas margens de um outro curso de eventos maiores, um grande plano de interações microscópicas entre pessoas, animais e paisagens rurais e industriais, motivos ubíquos nos seus filmes, despojos de projetos históricos e económicos por resolver.
Escrito a partir de um conto de Jon Raymond, Old Joy (2006), segunda longa-metragem de Reichardt após um hiato de mais de uma década, é um tratado de economia temporal e narrativa. Registo minucioso da silenciosa deterioração de uma amizade na reclusão bucólica de umas termas no estado do Oregon, Old Joy descobre o extraordinário na banalidade e vai construindo ideias de impermanência, sempre com uma postura cética, quase fatalista. As formas do filme — assumidamente afetadas pelo sistema de produção e orçamento reduzidíssimo, até para os padrões do cinema independente — de austeridade palpável, são permeáveis ao ar dos tempos. O ambiente político de apreensão nos Estados Unidos de George W. Bush pós-11 de setembro penetra a diegese através de intermináveis programas de rádio de comentário e opinião política, numa negociação constante entre pequena e larga escala, materializada em horas de espera, diálogos encravados e uma viagem sem resolução.
Em Wendy and Lucy (2008), Reichardt colabora com Raymond na escrita do argumento, dando continuidade ao projeto de desvelo de estruturas em decomposição, aqui na exposição de sucessivos falhanços institucionais no percurso condenado de uma mulher desprotegida. Início da parceria com a atriz Michelle Williams, o filme consolidou Reichardt como cineasta de um novo neorrealismo, voz das preocupações sociais atualizadas do século XXI sem o niilismo do mumblecore nem o moralismo dos indies quirky abundantes na década de 2000. Arcos narrativos sem hipótese de catarse, entraves sistemáticos à agência da protagonista, e o peso institucional sobre as relações humanas e animais: Wendy and Lucy assume pela montagem — sempre a cargo da realizadora — a construção de uma temporalidade de aparente estagnação, e inevitável decadência.
Integrado nos trabalhos do projeto “Cinema and Ecosophy: Values, Econarratives and Deep Ecology”, o ciclo sublinha também um motivo transversal à obra de Reichardt: a atenção à paisagem enquanto espaço moldado pela ação humana, pela precariedade económica e pelas marcas de projetos históricos falhados. Ainda que Night Moves (2013) represente a formulação mais explícita dessas preocupações ecológicas, em Old Joy e Wendy and Lucy Reichardt atesta formas de desgaste inscritas no espaço e nas relações entre humanos, animais e território. A natureza nunca surge como refúgio idealizado ou exterior ao mundo social, mas como extensão dessas mesmas estruturas de exaustão, abandono e instabilidade.