El río de los espíritus
O Grupo de Leitura CINEdeepECO inicia o seu ciclo de sessões com um encontro dedicado ao filme El río de los espíritus, do coletivo Tawna, em diálogo com a obra Un Mundo Ch’ixi es posible, da socióloga, historiadora e ativista boliviana Silvia Rivera Cusicanqui.
As sessões do Grupo de Leitura CINEdeepECO são organizadas por Maria Ejarque e por Maria Irene Aparício, no âmbito do projeto “Cinema e Ecosofia: Valores, Econarrativas e Ecologia Profunda (CINEdeepECO)”. Para receber o link de acesso à sessão online, envie um e-mail para maparicio@fcsh.unl.pt.
El Río de los Espíritus
El Río de los Espíritus
pelo coletivo Tawna
Equador, EUA, 2025 — 61 min. | M/12
A bordo de uma canoa solar, Luciano percorre o território da Amazónia equatoriana. A sua terra está a ser ameaçada por uma estrada fantasma que prenuncia uma divisão corrosiva. Perante a ameaça, Luciano sonha e navega, invocando os espíritos do rio, e reúne-se com o seu povo para procurar novas formas de resistência.
Coletivo Tawna
Tawna é um coletivo anticolonial formado por artistas Sáparas, Kichwas e mestiços que criam tendo como ponto de partida a floresta, entendida como território de memória, resistência e visão. Fundado em 2017, o coletivo explora o vídeo, a fotografia e o arquivo vivo para reimaginar narrativas ancoradas no onírico, no ritual e no corporal. Tawna — nome que remete para a ferramenta ancestral que impulsiona a canoa — conecta territórios, afetos e futuros a partir da sua raiz amazónica. O coletivo é formado por Sani Montahuano, Enoc Merino, Boloh Miranda, Mukutsawa Montahuano, Lucía Ferré, Ipiak Ushigua e Tatiana López. As suas propostas incluem obras coletivas multidisciplinares e processos formativos com comunidades amazónicas, convergindo na criação de narrativas próprias, íntimas, coletivas e experimentais, enraizadas nos territórios.
Nos últimos cinco anos, o seu trabalho foi apresentado em importantes espaços e exposições internacionais. Participaram na VERDE–DISTÂNCIA: 2.ª Bienal das Amazónias (2025), bem como na 14.ª Bienal de Cuenca, em parceria com Augusto Ballardo. As suas obras integraram exposições de destaque como “Pero la luz será mañana para los más”, no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía; “Brain Forest Quipu”, de Cecilia Vicuña, na Tate Modern; e “Water Pressure: Designing for the Future”, no MK&G de Hamburgo. Realizaram ainda a exposição individual “Modos de resistir”, no Arte Actual FLACSO.
Un Mundo Ch’ixi es posible
“Un Mundo Ch’ixi es posible” é um manifesto, da autoria de Silvia Rivera Cusicanqui, que propõe uma cartografia inventiva e urgente de mundos diversos, a partir dos quais pode emergir uma realidade decolonial. Rivera Cusicanqui apresenta um modelo ousado de hibridismo cultural, inspirado na experiência e no pensamento dos movimentos indígenas da América do Sul, e desenvolve uma reflexão fundamental sobre a oralidade e a produção de conhecimento na performance, na micropolítica e no quotidiano. Para Cusicanqui, o conceito de “Ch’ixi” — termo oriundo da geologia e da alvenaria, utilizado para descrever a textura e a coloração heterogéneas de uma rocha — funciona como uma metáfora para pensar a mistura de culturas que coexistem sem se fundirem, preservando as suas diferenças. O livro apresenta propostas estimulantes para alguns dos debates contemporâneos em torno do poder, da raça e do pensamento decolonial, apontando caminhos possíveis para uma coexistência que não exija o sacrifício da diferença em nome das lógicas económicas e culturais do capitalismo globalizado.
Silvia Rivera Cusicanqui
Silvia Rivera Cusicanqui (La Paz, 1949) é uma socióloga, historiadora e ativista boliviana de origem aimará, uma das principais referências do pensamento anticolonial contemporâneo. A sua investigação centra-se nas lutas indígenas na América do Sul, nas relações entre saberes indígenas e ocidentais e nas formas de resistência ao colonialismo. Partindo das cosmologias aimará e quéchua, desenvolve uma crítica das estruturas de poder e dos próprios discursos pós-coloniais e decoloniais, propondo outras formas de pensar a história, a política e a produção de conhecimento.