CultureLab • Seminário

Nietzsche on Culture

Susanna Zellini & Lorenzo Serini

Susanna Zellini, “Nietzsche on Culture and the University”

Quando Friedrich Nietzsche escreve as conferências “Sobre o Futuro das Nossas Instituições de Ensino”, ainda pertence ao mundo académico e acredita que uma forma de resistência à cultura universitária pode ainda ser levada a cabo a partir do seu interior. Esta posição gera uma profunda tensão entre a cultura académica dominante e a sua rejeição, entre a cultura falsa (“Pseudokultur” ou “Halbbildung”) e a cultura verdadeira, e entre formas distorcidas e autênticas de liberdade. Enquanto, a nível pessoal, esta tensão conduz ao seu afastamento definitivo da universidade, a nível filosófico abre o espaço para uma reflexão radicalmente nova sobre a liberdade académica, entendida através da relação entre solidão e comunidade académica. Esta conferência investiga a génese desses temas através de um confronto com Ralph Waldo Emerson (em particular “The American Scholar”) e Arthur Schopenhauer (“Sobre a Filosofia Universitária”), traçando as suas raízes numa tradição mais ampla de reflexão sobre a ideia de universidade, desde Wilhelm von Humboldt até Friedrich Schiller e Friedrich Schleiermacher, no contexto do projeto de reforma da universidade alemã. Com base nisso, questionar-se-á se a universidade ainda pode funcionar como uma “instituição de cultura”, qual é o “valor cultural” da universidade e em que conceitos de liberdade e autonomia tal papel poderia assentar. Mais especificamente, examina se uma filosofia autêntica (eigentliche Philosophie) ainda pode encontrar uma morada académica, ou se exige necessariamente uma forma de afastamento da instituição. Embora o diagnóstico de Nietzsche pareça em grande medida negativo, os seus primeiros escritos já identificam as condições para repensar a relação entre filosofia e universidade.


BIO | Susanna Zellini é Professora Auxiliar FNRS na Université Catholique de Louvain, investigadora MSCA no Centre Prospéro, em Bruxelas, e investigadora associada no Centre Marc Bloch. É co-coordenadora do Seminario Permanente Nietzscheano (SPN) e membro do Centro Italiano di Studi Nietzscheani (CISN) da HyperNietzsche, bem como da Internationale Nietzscheforschungsgruppe Stuttgart (INFG). A sua investigação centra-se na história do conceito de Bildung na filosofia alemã dos séculos XIX e XX e na sua relevância para os debates contemporâneos sobre educação. Entre as suas publicações recentes encontra-se “Ästhetik der Form. Sprachkritik, Musik und Stil bei Nietzsche und Adorno” (De Gruyter, 2024). Atualmente, prepara a publicação de “Teoria della Bildung”, de Wilhelm von Humboldt (tradução italiana e edição crítica, Melangolo, 2026).

Lorenzo Serini, “Nietzsche on Slave Morality, the Emotions, and the Transformation of Culture”

Em obras fundamentais como “Humano, Demasiado Humano”, “Para Além do Bem e do Mal” e “A Genealogia da Moral”, Friedrich Nietzsche desenvolve a distinção entre moral de senhores e moral de escravos como parte da sua análise mais ampla dos processos de formação e transformação cultural, incluindo a criação de valores. Nesta apresentação, examino o papel das emoções nessa distinção. Sugiro que abordar a distinção entre moral de escravos e moral de senhores a partir da perspetiva das emoções oferece uma via produtiva para complexificar a análise nietzschiana da transformação cultural. Concentro-me, em particular, na caracterização que Nietzsche faz da moral de escravos, procurando esclarecer o seu uso do vocabulário de “escravidão” neste contexto. Com base nisso, interrogo aquilo a que chamo a sua “tese da necessidade da escravidão”, segundo a qual “a escravidão, num sentido ou noutro”, é necessária para a elevação ou o aperfeiçoamento da cultura (“Para Além do Bem e do Mal”, §257). Por fim, avalio se a posição de Nietzsche sobre estas questões é, em última análise, defensável ou benéfica.


BIO | Lorenzo Serini é Professor Auxiliar no Departamento de Filosofia da Universidade de Warwick. As suas áreas de especialização incluem a filosofia europeia pós-kantiana (especialmente Friedrich Nietzsche), a história da filosofia ocidental (tanto antiga como moderna), a epistemologia das virtudes e dos vícios, e a filosofia das emoções. Publicou recentemente o artigo “Nietzsche’s Conception of Skepticism as Intellectual Virtue and Vice” na European Journal of Philosophy. Atualmente, está a co-editar um volume para a editora Palgrave Macmillan, intitulado “The Metaphor of Slavery in the Philosophy of Emotions: A History and Critique”.


O seminário será conduzido em inglês.